Sobre a Insônia & tantas outras coisas...
A insônia me perseguia, sem que eu tivesse uma noção clara do porquê há uns 13 anos. Outra dia, no sono do dia depois de uma noite com poucos sonhos, encontrei uma pista. Passo a segui-la, atordoadamente desde então, testando todas as hipóteses, transformando tal busca, quase obsessiva, em meta cotidiana. Com isso tenho até dormido um pouco melhor, é verdade.
Me movimento razoavelmente bem entre várias sensações estéticas. Lembro de perder a noção do tempo quando me vi à frente da “Eterna Primavera”. Não sei quando tempo fiquei circulando em sua volta, atento a cada detalhe, a cada músculo retesado, às mãos que, cuidadosa e carinhosamente sustentavam e procuravam os corpos nus e entregues ao mais belo desejo. Sei que quem estava comigo desistiu de me esperar e foi embora. Ainda bem que não consegui comprar uma réplica da “Eterna Primavera” para minha sala... A sensação daquele momento ainda está em mim.
Não saberia criar uma escala de prazeres, mas os prazeres estéticos têm em mim uma importância bem significativa. Adoro a palavra fruição. Poderia ficar falando, cientificamente, de minhas sensações ao trocar com esculturas, pinturas, gravuras, músicas, filmes, poesias, contos, mas talvez não seja completo. Não me sinto à vontade nem com o teatro nem com a dança. A ópera muitas vezes me parece algo enfadonho. Mas também seria interessante buscar compreender o que leva os criadores a inventarem coisas tão marcantes em suas formas de expressão. Quando Rodin terá concebido a “Eterna Primavera”? Quando Borges inventou “Os Fragmentos de Um Evangelho Apócrifo”? E quem me inventou, o fez por que? Agora o problema está criado, estou aqui e sou mais um para perguntar sobre qualquer coisa. Tenho vontade de te perguntar porque me leva a sério, mas evito - posso parecer pouco sério. Ia fazer um inventário, mudei de idéia; agora tenho a impressão de que vou morrer velho.
Os gregos afirmavam que o melhor da produção intelectual de um homem (a Adiké), se dá a partir de uns 35 a 40 anos. Tanto é que ao Senado só chegavam os muito velhos, os mais sábios. Eu me sinto um menino velho. Queria ser mais menino e ainda mais velho - certamente seria mais interessante, equilibrado. Talvez até menos previsível. Poderia me movimentar do óbvio à surpresa tendo sempre um amplo espectro de possibilidades a escolher. Hoje digo apenas que me movimento razoavelmente bem em várias expressões organizadas do conhecimento humano. Isso até me diverte, mas não sei à qual efetivamente pertenço. Não sou poeta, não sou músico, não sou escultor. Semeio e pesquiso. Ando cansado de palavras como “interdisciplinar”, mas isso pouco importa no momento. Eu falava mesmo era de insônia.
Talvez queira muito falar pouco de mim. Não nego que gosto imensamente de pensar que me imaginam. Eu imagino muito as pessoas - distantes muitas vezes - fazendo um monte de coisas, vivendo seu cotidiano e me pego imaginando-as no meu cotidiano, acabo me perdendo e chego logo ao meu destino... Sempre faço isso nos metrôs, táxis, ônibus... Antes eu deixava passar a estação, agora ando um pouco mais profissional, olho de quando em quando ao redor para me orientar. Várias vezes encontrei um sorriso que se divertia com minha completa concentração no nada (o nada para quem me olha naquele instante e eu nunca consegui uma foto minha nesses momentos...).
Mas eu ainda digo que iria falar sobre a insônia. Quero escrever sobre a insônia. Fui surpreendido por uma pergunta franca, direta: “O que te provoca essa insônia?” A pergunta, que veio com um jeito de corpo fresco, recém saído do banho, me incomodava a dias. Procurando a resposta, dormia cedo e acordava cedo, gostava de ver o sol e tinha vontade de andar de bicicleta e nadar - a preguiça tem vencido até agora. Eu não durmo à tarde.
Decido adiar algumas coisas como o inventário. Faço planos para o ócio da velhice. Não vou jogar damas, nem sueca. Meus netos, só nos dias em que eu acordar avô... Deixo tarefas já agendadas. Preciso ler “Em Busca do Tempo Perdido”, tentarei um novo combate com “As Palavras e as Coisas” e vou reler, já na minha idade-senador-grego, “Zadig” ou “O Destino”. Passarei semanas no Louvre, decorando seus corredores, me embrenharei por cada subterrâneo de Roma e me deixarei queimar em Éfeso. Pronto, isso já me toma muito tempo. Lembro de ver um personagem da história política brasileira em seus últimos dias. Meio fora do ar, me olhou, perguntou meu nome e, como já não se lembrava de mim, voltou à sua leitura, entremeada com gostosas gargalhadas e frases incompreensíveis, das “Cartas de Eça de Queirós”. Dizia para si mesmo que se o Eça tivesse escrito em inglês seria mais importante do que Shakespeare. Eu me divirto mais com Eça de Queirós.
Afinal para quem escrevo isso? E sobre minha insônia, vou falar ou não? E você leitor? Não se posiciona, lê esse monte de impressões desarrumadas e não intervém? Não fecha esse livro (blog) e o joga longe?.
O tempo passa, urge falar sobre tanta coisa. Se pudesse dizia tudo que sei. Iria doer. Doer em mim e em você. Iríamos chorar, arrancar as nossas dores, desilusões e gritá-las em praça pública. Íamos fazer o mundo chorar mais um pouco. Chorar com as coisas que nos impôs, com os sonhos que destruiu, com a emoção bela de alguns e a vileza de tantos outros. Mas eu preciso falar o que me propus. Não falo de algo novo ou desconhecido. Mas falo de uma forma de entender a nós mesmos.
Ansiedade!
A chave. Toma essa chave e tenta compreender tua ansiedade. Eu sigo essa pista. Eu sei contudo, que: “Feliz é o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm”1. Por isso acho que tenho somente uma pista. Minha pista pelo menos me indica que meus medos são ligados à mudança e inércia. Isso! Parece difícil de compreender? Não, não o é. Quando vivo longos tempos sem que nada aconteça (não sei quanto tempo quer dizer longo para mim), de completa estabilidade, não consigo dormir esperando que a surpresa venha logo.
Espero, preparo, invento, penso e repenso como será a surpresa dessa vez. A desenho no teto, a arrumo entre meus travesseiros e não durmo mais uma noite. Daí vem a surpresa, zoneia toda minha vida, joga meus travesseiros no chão e eu só enxergo a ela. Ela chega, furacão... Não deixa nada do passado e encontro-me depois, quando volto a pensar em outra coisa, catando meus fragmentos com um gosto bom na boca.
Daí vem a ansiedade da estabilização depois da mudança, depois pode vir de novo a estabilidade, o tédio, a insônia... Enfim, a insônia não tem nada a ver com isso. Bom mesmo é pensar que: “Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor. Felizes os felizes2“.
Paulo Lima
1 - Borges, Jorge Luís - Fragmentos de um Evangelho Apócrifo, in: Elogio da Sombra.
2 - Borges, Jorge Luís, idem
| Novembre 2009 | ||||||||||
| L | M | M | J | V | S | D | ||||
| 1 | ||||||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | ||||
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | ||||
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | ||||
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | ||||
| 30 | ||||||||||
|
||||||||||